
Tentei aproximar ao máximo a minha situação atual de como seria se eu fosse médica.
Primeiro eu teria que atender 30 pacientes por dia, todos de uma vez, só na parte da manhã. Só que todos eles têm os dois braços e as pernas e eu tenho que ficar gritando tudo o que está escrito na receita pelo menos umas três vezes pra cada um, enquanto um enfermeiro lê revistinha e outro reclama do dono do hospital.
Depois eu tenho que chegar do trabalho, almoçar correndo, e mandar os enfermeiros preguiçosos limparem todas as próteses que eu fiz durante o dia.
Enquanto isso, o chefe chega dizendo que eu preciso ver três pacientes que vão ter alta amanhã mas ainda estão com esse problema no olho. E eu digo: "Mas eu sou fisiatra, eu não entendo nada de olho!". E ele te dá um manual de 200 páginas e diz que tudo vai dar certo. Então quando você diz "pronto, então só me dá um bisturi...", e eles dizem: "bisturi? Nós não temos bisturi, precisa de bisturi mesmo?"
E outro diz: "Dá uma olhadinha nessa perna, ela não está um pouco diferente da outra? O que você acha de refazer, mesmo que o paciente esteja andando?".
E outro: "Eu não posso fazer nada, não tem agulha, eu não trabalho..."
Depois de operar três olhos e descobrir onde os enfermeiros guardaram as próteses limpas, eu preciso mandar essas próteses pra São Paulo. Só que a pessoa que vai receber as próteses não sabe encaixar nos pacientes.
No fim do dia eu já estou exausta e com vontade de deixar morrer alguém, chega um médico de 60 anos que é o oftalmologista do hospital (e eu não entendo porque é que fui EU que operei os cegos) e pede por favor pra que eu fique até mais tarde mostrando pra ele como é que trabalha um fisiatra.
E eu penso: "Assim..."
No fim do dia eu penso: "Pra que que eu fui estudar? Devia ter parado quando dava tempo, nada disso estaria acontecendo. Devia ter ouvido a minha mãe e sido animadora."
Ou não.